segunda-feira, 13 de novembro de 2023

ROTEIRO: Baixada do Glicério Viva

 

Boas vindas à Baixada do Glicério Viva!

A iniciativa contempla atividades no âmbito da educação patrimonial e ambiental, pesquisas, manutenção da memória e valorização do território, a partir de diversas ações.

A Baixada do Glicério, o fundão da cidade colonial, foi uma possibilidade de fuga, um dos primeiros pontos de aquilombamento de pessoas escravizadas em São Paulo. Concentrou um grande contingente da população negra, socialmente marginalizada, desde meados do século XIX. Era uma área alagadiça, de várzea, e de pouco interesse de moradia para a população mais abastada. Isso permitiu, de alguma maneira, que essas pessoas existissem com suas escolas de samba, terreiros, times de futebol e salões de baile. O cotidiano era repleto de batuques, coreografias, samba de umbigada, tambu, jongo, tiririca e sistemas cosmológicos relacionados à natureza, tais como os rios, ribeirões, igarapés, lagos, árvores sagradas e encruzilhadas.

Os fundos da igreja da Sé, atual bairro da Liberdade, aparecem nos mapas do final do século XIX como zona de extermínio da população preta e indígena. Em quase dois quarteirões, a vila de Piratininga, pretensa cidade de São Paulo, reuniu vários equipamentos públicos de controle de corpos: a cadeia pública, hoje Fórum João Mendes, o Pelourinho, espaço de tortura e suplício, a forca, o cemitério, o galpão de pólvora, o asilo de mendicância e a roda dos enjeitados.

Há pontos importantes da territorialidade negra e indígena nessa região, como os quilombos urbanos, o Peabiru, as cinco esquinas, a Iroko árvore sagrada, a fonte de água viva do ribeirão Lavapés no sítio Tapanhoim, local onde Tebas morou, as encruzilhadas de Exu e Pomba Gira, o mirante Morro do Piolho, a sede do Centro Cultural Palmares, do Paulistano da Glória, da Frente Negra Brasileira - FNB e da Soweto Organização Negra. Há ainda, personalidades importantes como Chaguinhas, as lavadeiras do Tamanduateí, as quitandeiras, Preto Badaró, Chico Mimi, Pai Zarabinda, Baduíra e Chico Gago, os locais de festejos como o bloco carnavalesco das Baianas Teimosas, os Zuavos, a casa Madrinha Eunice, local de fundação da escola de Samba Lavapés, o futebol de várzea, espaços religiosos e os notáveis Cemitério dos Aflitos, a Capela de Nossa Senhora dos Aflitos e a Igrejinha da Santa Cruz.

Na atualidade, a Baixada do Glicério/Liberdade é conhecida por reunir povos de vários países. São aproximadamente 90 nacionalidades, além de formas organizativas diversas, como o Centro de Estudos de Cultura da Guiné, a União Social dos Imigrantes Haitianos - USIH, a Ocupação dos Imigrantes Jean-Jacques Dessalines, a União dos Amigos Capela dos Aflitos - UNAMCA, o Instituto Tebas, o Museu de Território dos Aflitos - MTA, a Casa Axé Ilê de Oyá, o Batuq do Glicério, a União dos Cantadores Cordelistas Repentistas e Apologistas do Nordeste - UCRAN, a Cooperativa de Trabalho e da Coleta Seletiva dos Catadores da Baixada do Glicério - COOPERGLICÉRIO, o Serviço Franciscano de Apoio à Reciclagem - RECIFRAN, dentre outras. 

Antes de começar a zanzar pelo território,  a leitura deste guia pode ajudar na localização de alguns pontos de memória e de produção de conhecimentos. Fique à vontade para escolher o seu caminho!

Saiba mais acessando o @baixadadoglicerioviva

Leia na íntegra, baixe o documento aqui: Guia Baixada do Glicério Viva

créditos da publicação

organização

Soweto Organização Negra @sowetoorganizacao

História da Disputa @historiadadisputa

Baixada do Glicério Viva @baixadadoglicerioviva

preparação e revisão

Caróu Oliveira, Lina Rosa, Marcelo Lemos, Paulo Rafael, Raquel Martins, Romildo José, Rosseline Tavares e Suelma de Deus

design gráfico

Marcelo Pitel @pitel.arte

apoio

35ª Bienal de São Paulo - coreografias do impossível

realização

Djunta Mon


segunda-feira, 24 de julho de 2023

Da várzea ao viaduto: quem fez a história da Baixada do Glicério

No dia 21 de julho de 2023, a Baixada do Glicério Viva e a Soweto Organização Negra estiveram presentes na atividade proposta pelo Serviço Franciscano de Apoio a Reciclagem - RECIFRAN em parceria com o projeto História da Disputa, coordenado pela historiadora Caróu. Na ocasião, quase trinta pessoas realizaram uma caminhada organizada por mulheres, Laiane Santos e Pamela Maria, pelo território da Baixada do Glicério/Liberdade. Esta atividade teve o objetivo de trocar conhecimentos, sensibilizar os participantes, sobre o espaço/lugar/ambiente ao qual transitam, vivem e moram possibilitando a compreensão de fenômenos e características locais. 

A historiadora iniciou a atividade explicando que o nome das ruas, geralmente homens brancos, não representa quem realmente fez a cidade, ou seja, quem construiu as casas, colocou o asfalto, e sim de quem mandou fazer. Perguntou aos presentes, especialmente as catadoras e catadores, qual era o seu lugar favorito na cidade de São Paulo, e quase por unanimidade, responderam que era a região do centro, a praça da Sé. 

Durante a caminhada, Caróu distribuiu diversos mapas históricos da cidade de São Paulo, fotografias e informações da geografia sobre a região. Um deles, o "Secção Geológica AB", evidenciava as várzeas da cidade, as proximidades do rio Anhangabaú e Tamanduateí, indicando que a região da Baixada do Glicério é uma descida de quase 30 metros, considerando a escala vertical de 750 m na imagem. De acordo com a pesquisadora, "se você desce o morro, você está chengando no rio. Onde tem viaduto era rio".


Foto: Secção Geológica AB, Largo do Arouche, Praça da República, 
Praça Ramos de Azevedo, Córrego Anhangabaú, Largo São Bento, 
Rio Tamanduateí, Parque Dom Pedro II, Brás. Registro feito nas 
 cinco esquinas. 


Foto: Grupo de pessoas durante a caminhada educativa "Da Várzea ao viaduto: quem fez a história 
da Baixada do Glicério" na região das encruzilhadas de cinco pontas, ao lado da casa onde 
Madrinha Eunice fundou a Escola de Samba mais antiga da cidade de São Paulo (1937), a Lavapés. 

Ainda na região das Cinco Esquinas, a pesquisadora explicou que na  várzea do Tamanduateí, a população pobre da cidade e moradora do entorno, comia peixe e formigas. Os peixes trazidos pelo movimento das águas de subida e descida, apodreciam na várzea, atraindo formigas e tamanduás, daí a origem do nome do rio.

No momento da explicação, foi mencionado que o grupo de caminhantes estava exatamente nas cinco esquinas, local de produção de conhecimento, fortalecimento de saberes tradicionais e onde "praticou-se, no início do século 20, a roda de tiririca, brincadeira de rasteiras, similar à capoeira, misturada a batuques que sambistas e engraxates da Sé faziam com instrumentos de trabalho", de acordo com as informações contidas na placa de metal azul e branca do Departamento do Patrimônio Histórico - DPH, de São Paulo. 

Foto: Caróu explica aos presentes, com a ajuda de mapas cartográficos 
de diversos períodos, a presença dos rios enterrados na região das cinco esquinas. 

Na Sinimbu, uma das ruas da encruzilhada de cinco pontas, foi dito que morou Janio Quadros, um dos presidentes do Brasil que mais perseguiu as catadoras e os catadores de materiais recicláveis com a Lei de "limpeza pública". No entanto, mesmo com essa caçada desleal, foi fundada a primeira cooperativa de materiais recicláveis do Brasil na Baixada do Glicério em 1989 por pessoas em situação de rua, evidenciando o protagonismo da luta coletiva e gerando um sentimento de orgulho entre as trabalhadoras e os trabalhadores do ramo presentes. 

Foto: Grupo de caminhantes reunidos em frente à Galeria Glicério.


Na esquina das ruas Glicério com a Oscar Cintra Gordinho, em frente à "Galeria Glicério", Caróu explicou que esta região é onde tem aprofundado sua pesquisa de mestrado em História do Programa de Pós Graduação da Universidade de São Paulo - USP. Um dos pontos evidenciados pela historiadora, foi a retificação do rio Tamanduateí. Contou para o grupo presente que nesta região, há alguns vendedores de peixe em cima de um rio/várzea, que não existe mais. 

Foto: Caróu explica sobre alguns pontos de sua pesquisa de mestrado 
em História da Universidade de São Paulo em frente à galeria Glicério.


Explicou também que "os lugares de exclusão não mudam muito, pois algumas coisas permanecem". Como exemplo, disse que do outro lado da rua, era localizado um manicômio e hoje é o Sistema Integrado de Acolhida Terapêutica - SIAT II, que trabalha no atendimento aos usuários de "álcool e outras drogas" em situação de rua e dependência química. 

Nas imediações da praça José Luiz de Mello Malheiro e em frente à Paróquia Nossa Senhora da Paz, conhecida como a "igreja dos bolivianos e dos angolanos", a historiadora explicou que ali também era uma região de várzea onde as quitandeiras montavam suas banquinhas e vendiam frutas, legumes e verduras. Ela mostrou aos presentes uma foto do século XIX de uma mulher negra com turbante em frente à sua banca que se utilizava de um barril, e algumas cestarias para apresentar seus produtos. 

Foto: Em frente à Igreja Nossa Senhora da Paz, local que abriga a 
"Missão Paz", referencia de assistencia aos refugiados.

Acrescentou que, ainda com a tentativa de apagamento da história e a expulsão desta população frequentemente em diáspora, ainda há a presença de quitandeiras aos moldes das mulheres do século XIX, no entanto com outras narrativas e trajetórias a serem ouvidas. 

Foto: No registro, uma mulher negra de cabelos compridos observa peixes 
desidratados, bananas e inhames [comida de santo, segundo a pesquisadora], que foram 
expostos com a ajuda de papelão, madeira e um carrinho de supermercado. 

 
Madrinha Eunice, fundadora da Escola de Samba mais antiga de São Paulo, a Lavapés (1937) investiu a sua renda na organização da agremiação, sobretudo nos primeiros anos. Sua principal fonte de renda eram quatro barracas [quitandas]  de fruta/limão que possuía na praça Clovis Bevilacqua. De dezembro a janeiro, todo o rendimento dessas barracas era usado para financiar a escola. (SILVA; BAPTISTA; AZEVEDO; BUENO. Madrinha Eunice e Geraldo Filme: memórias do carnaval e do samba paulista. In: SILVA, Vagner Gonçalves. Memória afro brasileira: artes do corpo. vol. 2. São Paulo: Selo Negro, 2004). 

Em uma das esquinas na rua dos Estudantes, uma mulher montou sua quitanda com frutas, legumes e verduras. Na ocasião, um dos integrantes da Soweto Organização Negra parou para conversar com a venderora e comprar alguns itens de alimentação. No tabuleiro, havia mandioca, cenoura, alho, banana verde, banana prata e algumas verduras. 

Foto: Integrantes da Soweto junto à quitanda de Segunda, que está sentada atrás do seu 
pequeno comércio coberto com uma lona azul.


Após o diálogo, Paulo Rafael, um dos fundadores da Associação, comentou que "virando na esquina, logo após a explicação da Caróu, encontro com a mulher da  Guiné Bissau com turbante. As histórias são parecidas, uma que veio escravizada no século XIX e a outra por uma questão que ainda não sabemos, mas que está se virando nas encruzilhadas. As coisas e as histórias escondidas e excluídas acabam se encontrando. O tempo aspiralar de reencontros, esta situação, nos ajuda a ampliar o olhar. Você vai aprendendo nos becos, nas vielas, nas esquinas da Baixada do Glicério". 



A caminhada foi finalizada na Capela Nossa Senhora dos Aflitos com a fala de Sandra, uma das integrantes da União dos Amigos da Capela dos Aflitos - UNAMCA, que foi aluna do geógrafo Milton Santos. Caróu explicou que para além do patrimônio material, é necessário defender a existência das pessoas, para que possam continuar a contar suas histórias frequentemente silenciadas. 

Um dos integrantes da Soweto Organização Negra, após ouvir a fala do catador Fernando sobre a importância da caminhada, disse que este tipo de atividade "reforça o nosso orgulho, pois vamos voltar diferentes para casa, a história é bonita e é coletiva. Só caminhando para conhecer, por isso o nome é movimento". É a "gira", completou a historiadora Caróu.

Projeto de Educação Patrimonial e Ambiental Baixada do Glicério Viva

@baixadoglicerioviva


sexta-feira, 30 de junho de 2023

Bloco Baianas Teimosas



Na década de 30, o bloco carnavalesco Baianas Teimosas era formado por cerca de vinte moças, presididas por Ondina. Dele também participava Índia do Brasil, famosa estrela da Companhia Negra de Revista. A alegoria debochada das Baianas Teimosas contava com uma bateria formada por rapazes que se vestiam de mulher. A novidade do bloco era de tocar samba enquanto caminhava, demonstrando uma preferência por esse gênero musical. Era um dos mais aguardados devido a diversão que causava no público da época. O grupo de carnaval saía da rua Teixeira Leite passando pela encruzilhada de cinco pontas, as cinco esquinas - onde a escola de samba Lavapés fazia seu último ensaio de montagem do desfile - passando a engrossar a ala das baianas posteriormente. O bloco, com seus clarins e apitos, anunciava a chegada dos cordões e a guerra de serpentinas e laranjinhas, ajudando a construir uma parte significativa da memória do carnaval paulista. 


Rua Teixeira Leite, 520


Referência:

SILVA; BAPTISTA; AZEVEDO; BUENO. Madrinha Eunice e Geraldo Filme: memórias do carnaval e do samba paulista. In: SILVA, Vagner Gonçalves (org.). Memória afro brasileira: artes do corpo (vol. 2). São Paulo: Selo Negro, 2004. 


quarta-feira, 28 de junho de 2023

Planejamento Conceitual do Museu Afro Brasil Emanoel Araújo: participação da comunidade

Hoje a Baixada do Glicério e a Soweto Organização Negra estiveram presentes na roda de conversa acerca da revisão do Planejamento Conceitual do Museu Afro Brasil Emanoel Araújo, inaugurado em 2004, a partir da coleção particular do seu fundador e Diretor Curador Emanoel Araujo (1940-2022). O museu apresenta uma trajetória de contribuições decisivas para a valorização do universo cultural brasileiro ao colocar pautas necessárias sobre a presença e contribuição de pessoas negras na formação cultural do Brasil. 

Foram convidados Museus e instituições do entorno; Museus e espaços de memória com acervo e ou temática Afro-Brasileira; Espaços culturais, ONG´s e coletivos, hospitais e projetos voltados à saúde. O objetivo do encontro foi promover momentos de escuta e abertura ao diálogo com coletividades (comunidade) que representam os públicos do MAB-EA, e elencar as possibilidades de atuação do museu de modo integral (e integrado) de suas diferentes áreas técnicas em correspondência às demandas sociais apresentadas, de modo a reforçar a função social do MAB-EA.

A instituição utilizou o conceito de Museu de acordo com as normativas do ICOM 2022:

"Um museu é uma instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade que pesquisa, coleciona, conserva, interpreta e expõe patrimônio material e imaterial. Abertos ao público, acessíveis e inclusivos, os museus promovem a diversidade e a sustentabilidade. Atuam e se comunicam de forma ética, profissional e com a participação das comunidades, oferecendo experiências variadas de educação, fruição, reflexão e compartilhamento de conhecimento".

De acordo com a instituição, a participação da comunidade é fundamental para que o museu possua argumentos norteadores que respondam a questões primordiais para seu desenvolvimento, como “quem somos”, “onde queremos chegar”, “com quem queremos estabelecer conexões” e “de que maneira vamos chegar lá”. 

Dentre as perguntas, foi questionado aos participantes:

1. Como o museu pode se relacionar efetivamente com os Territórios (geográficos e conceituais) em que está inserido, e contribuir com os processos de combate ao racismo institucional?

2. Quais são os patrimônios e as tradições culturais relacionadas à comunidade negra dos territórios que não são contemplados pelo museu?

3. Quais são os problemas relacionados à questão racial enfrentados atualmente pela iniciativa que representa e de que forma o museu poderia contribuir para a sua resolução ou diminuição?

O Projeto de Educação Patrimonial e Ambiental Baixada do Glicério Viva sugeriu que algumas localidades históricas são espaços educativos, especialmente em territórios tradicionalmente ocupados por pessoas negras. Foi apontado também, que as culturas de várzea, localizadas às margens dos rios Tamanduateí, Saracura, Tietê e Lavapés, são espaços de sociabilidades negras e de extrema relevância para a compreensão da constituição da identidade nacional, como o futebol de várzea e a fundação das escolas de samba mais tradicionais de São Paulo: a "Lavapés" e o "Vai Vai".

O colega Fernando, do Centro de Pesquisa e Documentação Histórica Guaianás, mencionou sobre a importância de considerar as Igrejas de Santa Cruz, pois era onde aconteciam as festas de quermesse, os Batuques de Umbigada, a Caiumba, o Tambu, o Samba de Bumbo, o Samba de Roda e o Jongo. 

Foi destacado ainda, a importância da atuação em rede nos Territórios. Trata-se de um momento histórico, sob a orientação de Suzy Santos @suzy_ssts e Carolina Rocha, com a participação de diversos colegas Casa Sueli Carneiro @casasuelicarneiro Comunidade do Rosário da Penha @comunidadedorosariodapenha, Quilombaque @quilombaque Centro de Pesquisa e Documentação Histórica Guaianás @cpdocguaianas Museu Comunitário Jardim Vermelhão @museucomunitario_jdvermelhao Museu das favelas @museudasfavelas Museu da Diversidade Sexual @museudadiversidadesexual Casa Mario de Andrade @museucasamariodeandrade Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo @mac_usp Museu da Pessoa @museudapessoa Baixada do Glicério Viva @baixadadoglicerioviva Museu Nacional @museunacionalufrj dentre outros. 



segunda-feira, 26 de junho de 2023

Insurgência de mulheres artistas na Baixada do Glicério

No dia 25 de junho de 2023, aproximadamente vinte mulheres ocuparam as margens do Rio Tamanduateí, a Baixada do Glicério, para realização de obra de arte pública entre as encruzilhadas das ruas Lavapés e da Junqueira Freire, no Marco Zero do Samba em São Paulo

Inicialmente, o muro foi pintado de amarelo para receber os desenhos com a temática de mulheres negras, indígenas, bolivianas, japonesas, africanas, além de plantas, animais, práticas de reciclagem, feminismo, mães, saberes ancestrais e corações - rart - fora e dentro do peito. Foram utilizadas algumas técnicas artísticas, dentre elas o graffiti e a colagem de fotografia expandida. A escolha dos temas reflete a diversidade cultural do território e a sua importância histórica. 

Babi Lopes, uma das artistas presentes, explicou que "eu pinto mulheres negras porque eu gosto de me ver nas ruas. Eu coloco meu corpo em disputa no território, com essa estrutura completamente violenta que é a cidade". Disse que é difícil ver monumentos de pessoas negras, e que a ocupação com a arte nas ruas, ainda que efêmera, tem um potencial de educação antirracista, pois comunica com qualquer um que estiver passando por ali, "a pessoa não precisa entrar no museu" completou.

Babi Lopes @babi.lops

Nesta pintura, é possível observar alguns elementos das religiosidades de matrizes afro brasileiras que fazem referência à natureza, como as raízes ou rios ancestrais na cabeça, os brincos de búzios, e a espada de São Jorge que nasce no peito - rio - azul da personagem escolhida pela artista. 

É importante lembrar que neste território, Madrinha Eunice, quimbandista, fundou a Escola de Samba mais antiga da cidade de São Paulo em 1937, a Lavapés,  destacando o protagonismo e a força das mulheres negras. O local escolhido por ela foi uma encruzilhada de cinco pontas atravessada pelo corpo de água Lavapés, hoje oculto, onde reina o senhor das portas e fronteiras, Exu Veludo, sua entidade protetora. Não à toa, as cores da escola são vermelha, branco e preto, e a ala musical se chama "Batucada Veludo".

Kelly Reis explicou que seu desenho pode ser compreendido através da relação entre a África e o Japão, muito similar às disputas de narrativa histórica no bairro da Liberdade, que busca ocultar a presença e a memória de um território tradicionalmente ocupado por pessoas negras. 

Kelly Reis @kelly.reis_art

A prática de silenciamento inclui a invisibilização de pessoas, fatos, objetos e movimentos. Fomentar a diversidade de narrativas em espaços de memória através de programas de educação patrimonial, arte muralista, exposições, memoriais, centros de documentação, pequenos museus, museus comunitários, objetos arqueológicos, acervos, coleções, trilhas, publicações, é disputar o território que se vive, que se constrói significados, laços de afeto e histórias de luta. 

Dani Rampe, usando técnicas de colagem de fotografias históricas e pintura, explicou que "as pessoas que estão aqui na Baixada são racializadas, por isso eu escolhi representar mulheres indígenas. Não sei se você sabe, mas aqui é um local de reciclagem, é importante pensar nessa relação com a terra, com o rio, com a natureza e o próprio território de São Paulo. É isso que os povos indígenas fazem com os conhecimentos tradicionais".

A região da Baixada do Glicério, foi o local da fundação da primeira cooperativa de materiais recicláveis registrada oficialmente no Brasil em 1989 por pessoas em situação de rua, destacando mais uma vez o pioneirismo e a mobilização da região.  

Dani Rampe @_danirampe

Na foto coberta com pintura, duas mulheres indígenas foram registradas durante o processo de confecção da farinha. Há flores brancas que brotam de suas cabeças e raízes que tentam alcançar o concreto endurecido das calçadas. A artista explicou que na região de Cruz, Ceará, onde seus pais nasceram, há um período específico para o "processo da farinhada", geralmente começa em junho e vai até outubro.  

Afolego (Carolina), autora da mulher de pele rosa com cabelos curtos e roxos, aposta na referência do "lenço verde" que é o símbolo da luta pelo direito ao aborto iniciada em 2003 na Argentina. O rosto da imagem parcialmente encoberta por uma "comigo ninguém pode", segundo ela, também pode ser interpretada como uma tentativa de proteção nas ruas e uma busca pela ancestralidade. 

Afolego @afolego

Ela explicou que as latinhas de spray facilitam a pintura do "muro grosso" das ruas, em comparação com as latas e pincéis de tinta tradicionais. Disse que a textura rugosa do muro e a iluminação forte do sol de quase meio dia, fizeram alguns sombreados durante a execução da pintura, o que exigiu um pouco mais de esforço para a finalização.

Diferente do que muita gente imagina sobre o spray, segundo Afolego, é possível realizar um acabamento bem preciso no desenho, mas é necessário entender a técnica e praticar. Disse também que a latinha é mais fácil de transportar, e de correr com elas, se for o caso. A técnica do graffiti é pouco compreendida e as artistas ainda sofrem preconceito e perseguição, completou Amanda Pankill, autora da mulher Guarani de pele vermelha e cabelos brancos. A imagem aparece coberta por uma pele de onça com a seguinte frase no peito "Kianumaka-Manã".  

Amanda Pankill @amandapankill


De acordo com a autora, Amanda Pankill, a Deusa Guarani representada está associada à liberdade, à um espírito livre e indomável "carrega consigo o espírito das onças como forma de encarar seus medos. É uma deusa guerreira e eu quis representá-la, pois para estar nas ruas, temos que nos vestir um pouco de onça e estarmos prontas para encarar um ambiente que é hostil para os corpos das mulheres. Pra se manter na rua é preciso guerrear com muitos obstáculos".

Mestiça mãe, explica que "no meu trampo eu procuro representar mães. Acho que somos uma classe esquecida no mundo profissional e também no mundo das artes. Esse apagamento é muito cruel e eu entendo que essa representatividade é uma forma de nos lembrar de nossa ancestralidade. Da importância de reverenciar quem veio antes de nós para termos um presente e futuro mais saudável, respeitoso e próspero". 


Mestiça Mãe @mimurarodriguez

Luana Xavier, disse que "é maravilhoso poder estar com várias artistas pintando no Glicério e poder colocar um pouco da minha arte aqui. Busco abordar temáticas variadas, com atenção especial aos temas que envolvem manifestações da cultura brasileira, sua fauna e flora. Assim como a valorização do feminismo e seus desdobramentos. Aqui optei por representar uma árvore por ser um muro de um espaço de reciclagem que ressignifica os materiais descartados, contribuindo para a preservação do meio ambiente". 

Xavier @luanaxaviertattoo

Durante o processo de execução da obra de arte pública, essas mulheres compartilharam seus conhecimentos sobre técnicas artísticas, trabalhos, experiências de pintura nas ruas, inclusive suas próprias tintas e o espaço do muro. A realização deste empreendimento teve o apoio da Escola Waldorf em parceria com o Serviço Franciscano de Apoio a Reciclagem - RECIFRAN. Segue abaixo as multiartistas que compõe a Exposição localizada na Rua Junqueira Freire, 176.


Caluz @caluzcaluz


Nart @nartarte


Ana Carla @_negana_


MaJo @majo.stencil


Bea @beacorradi

maribê @wtfmaribe & Mestiça Mãe @mimurarodriguez
Tuíra



VID EIRA @eu_vid

maribê @wtfmaribe


Patrícia Bonani/P.BONANI @patriciabonani

Projeto de Educação Patrimonial e Ambiental Baixada do Glicério Viva

@baixadoglicerioviva




terça-feira, 16 de maio de 2023

Encontro da Rede de Museus Históricos: Patrimônio e exposição

 

No dia 26 de abril de 2023, o Projeto de Educação Patrimonial e Ambiental Baixada do Glicério Viva esteve presente no Encontro  da Rede de Museus Históricos: Patrimônio e exposição. 

1ª Caminhada: O chão dos nossos ancestrais – CEVENB OAB

 


Territórios Educativos: Baixada do GLicério e Liberdade
1ª Caminhada: O chão dos nossos ancestrais – CEVENB OAB

Data: 13 de maio de 2023
Saída: OAB SP Sede - Rua Maria Paula, 35
Hora: 08:30

Para a presidente da Comissão organizadora do evento, Rosana Rufino, a caminhada pelos diversos pontos da região central de São Paulo irá mostrar aos participantes uma parte da história que não pode ser esquecida. "Conhecer e divulgar a existência dos territórios negros na cidade de São Paulo por muito tempo invisibilizados é um compromisso da Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra no Brasil da OAB SP”, afirma a presidente.

Apoio: Soweto Organização Negra, União de Mulheres de São Paulo, Kombosa Seletiva, Rede de Arqueologia Negra, União Social dos Imigrantes Haitianos, Notícias da Aclimação e Cambuci, Instituto Tebas, Cartografia Negra, Projeto de Educação Patrimonial e Ambiental Baixada do Glicério Viva. 

ROTEIRO: Baixada do Glicério Viva

  Boas vindas à Baixada do Glicério Viva! A iniciativa contempla atividades no âmbito da educação patrimonial e ambiental, pesquisas, manu...