No dia 21 de julho de 2023, a Baixada do Glicério Viva e a Soweto Organização Negra estiveram presentes na atividade proposta pelo Serviço Franciscano de Apoio a Reciclagem - RECIFRAN em parceria com o projeto História da Disputa, coordenado pela historiadora Caróu. Na ocasião, quase trinta pessoas realizaram uma caminhada organizada por mulheres, Laiane Santos e Pamela Maria, pelo território da Baixada do Glicério/Liberdade. Esta atividade teve o objetivo de trocar conhecimentos, sensibilizar os participantes, sobre o espaço/lugar/ambiente ao qual transitam, vivem e moram possibilitando a compreensão de fenômenos e características locais.
A historiadora iniciou a atividade explicando que o nome das ruas, geralmente homens brancos, não representa quem realmente fez a cidade, ou seja, quem construiu as casas, colocou o asfalto, e sim de quem mandou fazer. Perguntou aos presentes, especialmente as catadoras e catadores, qual era o seu lugar favorito na cidade de São Paulo, e quase por unanimidade, responderam que era a região do centro, a praça da Sé.
Durante a caminhada, Caróu distribuiu diversos mapas históricos da cidade de São Paulo, fotografias e informações da geografia sobre a região. Um deles, o "Secção Geológica AB", evidenciava as várzeas da cidade, as proximidades do rio Anhangabaú e Tamanduateí, indicando que a região da Baixada do Glicério é uma descida de quase 30 metros, considerando a escala vertical de 750 m na imagem. De acordo com a pesquisadora, "se você desce o morro, você está chengando no rio. Onde tem viaduto era rio".
Foto: Secção Geológica AB, Largo do Arouche, Praça da República,
Praça Ramos de Azevedo, Córrego Anhangabaú, Largo São Bento,
Rio Tamanduateí, Parque Dom Pedro II, Brás. Registro feito nas
cinco esquinas.
Foto: Grupo de pessoas durante a caminhada educativa "Da Várzea ao viaduto: quem fez a história
da Baixada do Glicério" na região das encruzilhadas de cinco pontas, ao lado da casa onde
Madrinha Eunice fundou a Escola de Samba mais antiga da cidade de São Paulo (1937), a Lavapés.
Ainda na região das Cinco Esquinas, a pesquisadora explicou que na várzea do Tamanduateí, a população pobre da cidade e moradora do entorno, comia peixe e formigas. Os peixes trazidos pelo movimento das águas de subida e descida, apodreciam na várzea, atraindo formigas e tamanduás, daí a origem do nome do rio.
No momento da explicação, foi mencionado que o grupo de caminhantes estava exatamente nas cinco esquinas, local de produção de conhecimento, fortalecimento de saberes tradicionais e onde "praticou-se, no início do século 20, a roda de tiririca, brincadeira de rasteiras, similar à capoeira, misturada a batuques que sambistas e engraxates da Sé faziam com instrumentos de trabalho", de acordo com as informações contidas na placa de metal azul e branca do Departamento do Patrimônio Histórico - DPH, de São Paulo.
Foto: Caróu explica aos presentes, com a ajuda de mapas cartográficos
de diversos períodos, a presença dos rios enterrados na região das cinco esquinas.
Na Sinimbu, uma das ruas da encruzilhada de cinco pontas, foi dito que morou Janio Quadros, um dos presidentes do Brasil que mais perseguiu as catadoras e os catadores de materiais recicláveis com a Lei de "limpeza pública". No entanto, mesmo com essa caçada desleal, foi fundada a primeira cooperativa de materiais recicláveis do Brasil na Baixada do Glicério em 1989 por pessoas em situação de rua, evidenciando o protagonismo da luta coletiva e gerando um sentimento de orgulho entre as trabalhadoras e os trabalhadores do ramo presentes.
Foto: Grupo de caminhantes reunidos em frente à Galeria Glicério.
Na esquina das ruas Glicério com a Oscar Cintra Gordinho, em frente à "Galeria Glicério", Caróu explicou que esta região é onde tem aprofundado sua pesquisa de mestrado em História do Programa de Pós Graduação da Universidade de São Paulo - USP. Um dos pontos evidenciados pela historiadora, foi a retificação do rio Tamanduateí. Contou para o grupo presente que nesta região, há alguns vendedores de peixe em cima de um rio/várzea, que não existe mais.
Foto: Caróu explica sobre alguns pontos de sua pesquisa de mestrado
em História da Universidade de São Paulo em frente à galeria Glicério.
Explicou também que "os lugares de exclusão não mudam muito, pois algumas coisas permanecem". Como exemplo, disse que do outro lado da rua, era localizado um manicômio e hoje é o Sistema Integrado de Acolhida Terapêutica - SIAT II, que trabalha no atendimento aos usuários de "álcool e outras drogas" em situação de rua e dependência química.
Nas imediações da praça José Luiz de Mello Malheiro e em frente à Paróquia Nossa Senhora da Paz, conhecida como a "igreja dos bolivianos e dos angolanos", a historiadora explicou que ali também era uma região de várzea onde as quitandeiras montavam suas banquinhas e vendiam frutas, legumes e verduras. Ela mostrou aos presentes uma foto do século XIX de uma mulher negra com turbante em frente à sua banca que se utilizava de um barril, e algumas cestarias para apresentar seus produtos.
Foto: Em frente à Igreja Nossa Senhora da Paz, local que abriga a
"Missão Paz", referencia de assistencia aos refugiados.
Acrescentou que, ainda com a tentativa de apagamento da história e a expulsão desta população frequentemente em diáspora, ainda há a presença de quitandeiras aos moldes das mulheres do século XIX, no entanto com outras narrativas e trajetórias a serem ouvidas.
Foto: No registro, uma mulher negra de cabelos compridos observa peixes
desidratados, bananas e inhames [comida de santo, segundo a pesquisadora], que foram
expostos com a ajuda de papelão, madeira e um carrinho de supermercado.
Madrinha Eunice, fundadora da Escola de Samba mais antiga de São Paulo, a Lavapés (1937) investiu a sua renda na organização da agremiação, sobretudo nos primeiros anos. Sua principal fonte de renda eram quatro barracas [quitandas] de fruta/limão que possuía na praça Clovis Bevilacqua. De dezembro a janeiro, todo o rendimento dessas barracas era usado para financiar a escola. (SILVA; BAPTISTA; AZEVEDO; BUENO. Madrinha Eunice e Geraldo Filme: memórias do carnaval e do samba paulista. In: SILVA, Vagner Gonçalves. Memória afro brasileira: artes do corpo. vol. 2. São Paulo: Selo Negro, 2004).
Em uma das esquinas na rua dos Estudantes, uma mulher montou sua quitanda com frutas, legumes e verduras. Na ocasião, um dos integrantes da Soweto Organização Negra parou para conversar com a venderora e comprar alguns itens de alimentação. No tabuleiro, havia mandioca, cenoura, alho, banana verde, banana prata e algumas verduras.
Foto: Integrantes da Soweto junto à quitanda de Segunda, que está sentada atrás do seu
pequeno comércio coberto com uma lona azul.
Após o diálogo, Paulo Rafael, um dos fundadores da Associação, comentou que "virando na esquina, logo após a explicação da Caróu, encontro com a mulher da Guiné Bissau com turbante. As histórias são parecidas, uma que veio escravizada no século XIX e a outra por uma questão que ainda não sabemos, mas que está se virando nas encruzilhadas. As coisas e as histórias escondidas e excluídas acabam se encontrando. O tempo aspiralar de reencontros, esta situação, nos ajuda a ampliar o olhar. Você vai aprendendo nos becos, nas vielas, nas esquinas da Baixada do Glicério".
A caminhada foi finalizada na Capela Nossa Senhora dos Aflitos com a fala de Sandra, uma das integrantes da União dos Amigos da Capela dos Aflitos - UNAMCA, que foi aluna do geógrafo Milton Santos. Caróu explicou que para além do patrimônio material, é necessário defender a existência das pessoas, para que possam continuar a contar suas histórias frequentemente silenciadas.
Um dos integrantes da Soweto Organização Negra, após ouvir a fala do catador Fernando sobre a importância da caminhada, disse que este tipo de atividade "reforça o nosso orgulho, pois vamos voltar diferentes para casa, a história é bonita e é coletiva. Só caminhando para conhecer, por isso o nome é movimento". É a "gira", completou a historiadora Caróu.
Projeto de Educação Patrimonial e Ambiental Baixada do Glicério Viva
@baixadoglicerioviva
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