sexta-feira, 30 de junho de 2023

Bloco Baianas Teimosas



Na década de 30, o bloco carnavalesco Baianas Teimosas era formado por cerca de vinte moças, presididas por Ondina. Dele também participava Índia do Brasil, famosa estrela da Companhia Negra de Revista. A alegoria debochada das Baianas Teimosas contava com uma bateria formada por rapazes que se vestiam de mulher. A novidade do bloco era de tocar samba enquanto caminhava, demonstrando uma preferência por esse gênero musical. Era um dos mais aguardados devido a diversão que causava no público da época. O grupo de carnaval saía da rua Teixeira Leite passando pela encruzilhada de cinco pontas, as cinco esquinas - onde a escola de samba Lavapés fazia seu último ensaio de montagem do desfile - passando a engrossar a ala das baianas posteriormente. O bloco, com seus clarins e apitos, anunciava a chegada dos cordões e a guerra de serpentinas e laranjinhas, ajudando a construir uma parte significativa da memória do carnaval paulista. 


Rua Teixeira Leite, 520


Referência:

SILVA; BAPTISTA; AZEVEDO; BUENO. Madrinha Eunice e Geraldo Filme: memórias do carnaval e do samba paulista. In: SILVA, Vagner Gonçalves (org.). Memória afro brasileira: artes do corpo (vol. 2). São Paulo: Selo Negro, 2004. 


quarta-feira, 28 de junho de 2023

Planejamento Conceitual do Museu Afro Brasil Emanoel Araújo: participação da comunidade

Hoje a Baixada do Glicério e a Soweto Organização Negra estiveram presentes na roda de conversa acerca da revisão do Planejamento Conceitual do Museu Afro Brasil Emanoel Araújo, inaugurado em 2004, a partir da coleção particular do seu fundador e Diretor Curador Emanoel Araujo (1940-2022). O museu apresenta uma trajetória de contribuições decisivas para a valorização do universo cultural brasileiro ao colocar pautas necessárias sobre a presença e contribuição de pessoas negras na formação cultural do Brasil. 

Foram convidados Museus e instituições do entorno; Museus e espaços de memória com acervo e ou temática Afro-Brasileira; Espaços culturais, ONG´s e coletivos, hospitais e projetos voltados à saúde. O objetivo do encontro foi promover momentos de escuta e abertura ao diálogo com coletividades (comunidade) que representam os públicos do MAB-EA, e elencar as possibilidades de atuação do museu de modo integral (e integrado) de suas diferentes áreas técnicas em correspondência às demandas sociais apresentadas, de modo a reforçar a função social do MAB-EA.

A instituição utilizou o conceito de Museu de acordo com as normativas do ICOM 2022:

"Um museu é uma instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade que pesquisa, coleciona, conserva, interpreta e expõe patrimônio material e imaterial. Abertos ao público, acessíveis e inclusivos, os museus promovem a diversidade e a sustentabilidade. Atuam e se comunicam de forma ética, profissional e com a participação das comunidades, oferecendo experiências variadas de educação, fruição, reflexão e compartilhamento de conhecimento".

De acordo com a instituição, a participação da comunidade é fundamental para que o museu possua argumentos norteadores que respondam a questões primordiais para seu desenvolvimento, como “quem somos”, “onde queremos chegar”, “com quem queremos estabelecer conexões” e “de que maneira vamos chegar lá”. 

Dentre as perguntas, foi questionado aos participantes:

1. Como o museu pode se relacionar efetivamente com os Territórios (geográficos e conceituais) em que está inserido, e contribuir com os processos de combate ao racismo institucional?

2. Quais são os patrimônios e as tradições culturais relacionadas à comunidade negra dos territórios que não são contemplados pelo museu?

3. Quais são os problemas relacionados à questão racial enfrentados atualmente pela iniciativa que representa e de que forma o museu poderia contribuir para a sua resolução ou diminuição?

O Projeto de Educação Patrimonial e Ambiental Baixada do Glicério Viva sugeriu que algumas localidades históricas são espaços educativos, especialmente em territórios tradicionalmente ocupados por pessoas negras. Foi apontado também, que as culturas de várzea, localizadas às margens dos rios Tamanduateí, Saracura, Tietê e Lavapés, são espaços de sociabilidades negras e de extrema relevância para a compreensão da constituição da identidade nacional, como o futebol de várzea e a fundação das escolas de samba mais tradicionais de São Paulo: a "Lavapés" e o "Vai Vai".

O colega Fernando, do Centro de Pesquisa e Documentação Histórica Guaianás, mencionou sobre a importância de considerar as Igrejas de Santa Cruz, pois era onde aconteciam as festas de quermesse, os Batuques de Umbigada, a Caiumba, o Tambu, o Samba de Bumbo, o Samba de Roda e o Jongo. 

Foi destacado ainda, a importância da atuação em rede nos Territórios. Trata-se de um momento histórico, sob a orientação de Suzy Santos @suzy_ssts e Carolina Rocha, com a participação de diversos colegas Casa Sueli Carneiro @casasuelicarneiro Comunidade do Rosário da Penha @comunidadedorosariodapenha, Quilombaque @quilombaque Centro de Pesquisa e Documentação Histórica Guaianás @cpdocguaianas Museu Comunitário Jardim Vermelhão @museucomunitario_jdvermelhao Museu das favelas @museudasfavelas Museu da Diversidade Sexual @museudadiversidadesexual Casa Mario de Andrade @museucasamariodeandrade Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo @mac_usp Museu da Pessoa @museudapessoa Baixada do Glicério Viva @baixadadoglicerioviva Museu Nacional @museunacionalufrj dentre outros. 



segunda-feira, 26 de junho de 2023

Insurgência de mulheres artistas na Baixada do Glicério

No dia 25 de junho de 2023, aproximadamente vinte mulheres ocuparam as margens do Rio Tamanduateí, a Baixada do Glicério, para realização de obra de arte pública entre as encruzilhadas das ruas Lavapés e da Junqueira Freire, no Marco Zero do Samba em São Paulo

Inicialmente, o muro foi pintado de amarelo para receber os desenhos com a temática de mulheres negras, indígenas, bolivianas, japonesas, africanas, além de plantas, animais, práticas de reciclagem, feminismo, mães, saberes ancestrais e corações - rart - fora e dentro do peito. Foram utilizadas algumas técnicas artísticas, dentre elas o graffiti e a colagem de fotografia expandida. A escolha dos temas reflete a diversidade cultural do território e a sua importância histórica. 

Babi Lopes, uma das artistas presentes, explicou que "eu pinto mulheres negras porque eu gosto de me ver nas ruas. Eu coloco meu corpo em disputa no território, com essa estrutura completamente violenta que é a cidade". Disse que é difícil ver monumentos de pessoas negras, e que a ocupação com a arte nas ruas, ainda que efêmera, tem um potencial de educação antirracista, pois comunica com qualquer um que estiver passando por ali, "a pessoa não precisa entrar no museu" completou.

Babi Lopes @babi.lops

Nesta pintura, é possível observar alguns elementos das religiosidades de matrizes afro brasileiras que fazem referência à natureza, como as raízes ou rios ancestrais na cabeça, os brincos de búzios, e a espada de São Jorge que nasce no peito - rio - azul da personagem escolhida pela artista. 

É importante lembrar que neste território, Madrinha Eunice, quimbandista, fundou a Escola de Samba mais antiga da cidade de São Paulo em 1937, a Lavapés,  destacando o protagonismo e a força das mulheres negras. O local escolhido por ela foi uma encruzilhada de cinco pontas atravessada pelo corpo de água Lavapés, hoje oculto, onde reina o senhor das portas e fronteiras, Exu Veludo, sua entidade protetora. Não à toa, as cores da escola são vermelha, branco e preto, e a ala musical se chama "Batucada Veludo".

Kelly Reis explicou que seu desenho pode ser compreendido através da relação entre a África e o Japão, muito similar às disputas de narrativa histórica no bairro da Liberdade, que busca ocultar a presença e a memória de um território tradicionalmente ocupado por pessoas negras. 

Kelly Reis @kelly.reis_art

A prática de silenciamento inclui a invisibilização de pessoas, fatos, objetos e movimentos. Fomentar a diversidade de narrativas em espaços de memória através de programas de educação patrimonial, arte muralista, exposições, memoriais, centros de documentação, pequenos museus, museus comunitários, objetos arqueológicos, acervos, coleções, trilhas, publicações, é disputar o território que se vive, que se constrói significados, laços de afeto e histórias de luta. 

Dani Rampe, usando técnicas de colagem de fotografias históricas e pintura, explicou que "as pessoas que estão aqui na Baixada são racializadas, por isso eu escolhi representar mulheres indígenas. Não sei se você sabe, mas aqui é um local de reciclagem, é importante pensar nessa relação com a terra, com o rio, com a natureza e o próprio território de São Paulo. É isso que os povos indígenas fazem com os conhecimentos tradicionais".

A região da Baixada do Glicério, foi o local da fundação da primeira cooperativa de materiais recicláveis registrada oficialmente no Brasil em 1989 por pessoas em situação de rua, destacando mais uma vez o pioneirismo e a mobilização da região.  

Dani Rampe @_danirampe

Na foto coberta com pintura, duas mulheres indígenas foram registradas durante o processo de confecção da farinha. Há flores brancas que brotam de suas cabeças e raízes que tentam alcançar o concreto endurecido das calçadas. A artista explicou que na região de Cruz, Ceará, onde seus pais nasceram, há um período específico para o "processo da farinhada", geralmente começa em junho e vai até outubro.  

Afolego (Carolina), autora da mulher de pele rosa com cabelos curtos e roxos, aposta na referência do "lenço verde" que é o símbolo da luta pelo direito ao aborto iniciada em 2003 na Argentina. O rosto da imagem parcialmente encoberta por uma "comigo ninguém pode", segundo ela, também pode ser interpretada como uma tentativa de proteção nas ruas e uma busca pela ancestralidade. 

Afolego @afolego

Ela explicou que as latinhas de spray facilitam a pintura do "muro grosso" das ruas, em comparação com as latas e pincéis de tinta tradicionais. Disse que a textura rugosa do muro e a iluminação forte do sol de quase meio dia, fizeram alguns sombreados durante a execução da pintura, o que exigiu um pouco mais de esforço para a finalização.

Diferente do que muita gente imagina sobre o spray, segundo Afolego, é possível realizar um acabamento bem preciso no desenho, mas é necessário entender a técnica e praticar. Disse também que a latinha é mais fácil de transportar, e de correr com elas, se for o caso. A técnica do graffiti é pouco compreendida e as artistas ainda sofrem preconceito e perseguição, completou Amanda Pankill, autora da mulher Guarani de pele vermelha e cabelos brancos. A imagem aparece coberta por uma pele de onça com a seguinte frase no peito "Kianumaka-Manã".  

Amanda Pankill @amandapankill


De acordo com a autora, Amanda Pankill, a Deusa Guarani representada está associada à liberdade, à um espírito livre e indomável "carrega consigo o espírito das onças como forma de encarar seus medos. É uma deusa guerreira e eu quis representá-la, pois para estar nas ruas, temos que nos vestir um pouco de onça e estarmos prontas para encarar um ambiente que é hostil para os corpos das mulheres. Pra se manter na rua é preciso guerrear com muitos obstáculos".

Mestiça mãe, explica que "no meu trampo eu procuro representar mães. Acho que somos uma classe esquecida no mundo profissional e também no mundo das artes. Esse apagamento é muito cruel e eu entendo que essa representatividade é uma forma de nos lembrar de nossa ancestralidade. Da importância de reverenciar quem veio antes de nós para termos um presente e futuro mais saudável, respeitoso e próspero". 


Mestiça Mãe @mimurarodriguez

Luana Xavier, disse que "é maravilhoso poder estar com várias artistas pintando no Glicério e poder colocar um pouco da minha arte aqui. Busco abordar temáticas variadas, com atenção especial aos temas que envolvem manifestações da cultura brasileira, sua fauna e flora. Assim como a valorização do feminismo e seus desdobramentos. Aqui optei por representar uma árvore por ser um muro de um espaço de reciclagem que ressignifica os materiais descartados, contribuindo para a preservação do meio ambiente". 

Xavier @luanaxaviertattoo

Durante o processo de execução da obra de arte pública, essas mulheres compartilharam seus conhecimentos sobre técnicas artísticas, trabalhos, experiências de pintura nas ruas, inclusive suas próprias tintas e o espaço do muro. A realização deste empreendimento teve o apoio da Escola Waldorf em parceria com o Serviço Franciscano de Apoio a Reciclagem - RECIFRAN. Segue abaixo as multiartistas que compõe a Exposição localizada na Rua Junqueira Freire, 176.


Caluz @caluzcaluz


Nart @nartarte


Ana Carla @_negana_


MaJo @majo.stencil


Bea @beacorradi

maribê @wtfmaribe & Mestiça Mãe @mimurarodriguez
Tuíra



VID EIRA @eu_vid

maribê @wtfmaribe


Patrícia Bonani/P.BONANI @patriciabonani

Projeto de Educação Patrimonial e Ambiental Baixada do Glicério Viva

@baixadoglicerioviva




ROTEIRO: Baixada do Glicério Viva

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