No dia 25 de junho de 2023, aproximadamente vinte mulheres ocuparam as margens do Rio Tamanduateí, a Baixada do Glicério, para realização de obra de arte pública entre as encruzilhadas das ruas Lavapés e da Junqueira Freire, no Marco Zero do Samba em São Paulo.
Inicialmente, o muro foi pintado de amarelo para receber os desenhos com a temática de mulheres negras, indígenas, bolivianas, japonesas, africanas, além de plantas, animais, práticas de reciclagem, feminismo, mães, saberes ancestrais e corações - rart - fora e dentro do peito. Foram utilizadas algumas técnicas artísticas, dentre elas o graffiti e a colagem de fotografia expandida. A escolha dos temas reflete a diversidade cultural do território e a sua importância histórica.
Babi Lopes, uma das artistas presentes, explicou que "eu pinto mulheres negras porque eu gosto de me ver nas ruas. Eu coloco meu corpo em disputa no território, com essa estrutura completamente violenta que é a cidade". Disse que é difícil ver monumentos de pessoas negras, e que a ocupação com a arte nas ruas, ainda que efêmera, tem um potencial de educação antirracista, pois comunica com qualquer um que estiver passando por ali, "a pessoa não precisa entrar no museu" completou.
Babi Lopes @babi.lops
Nesta pintura, é possível observar alguns elementos das religiosidades de matrizes afro brasileiras que fazem referência à natureza, como as raízes ou rios ancestrais na cabeça, os brincos de búzios, e a espada de São Jorge que nasce no peito - rio - azul da personagem escolhida pela artista.
É importante lembrar que neste território, Madrinha Eunice, quimbandista, fundou a Escola de Samba mais antiga da cidade de São Paulo em 1937, a Lavapés, destacando o protagonismo e a força das mulheres negras. O local escolhido por ela foi uma encruzilhada de cinco pontas atravessada pelo corpo de água Lavapés, hoje oculto, onde reina o senhor das portas e fronteiras, Exu Veludo, sua entidade protetora. Não à toa, as cores da escola são vermelha, branco e preto, e a ala musical se chama "Batucada Veludo".
Kelly Reis explicou que seu desenho pode ser compreendido através da relação entre a África e o Japão, muito similar às disputas de narrativa histórica no bairro da Liberdade, que busca ocultar a presença e a memória de um território tradicionalmente ocupado por pessoas negras.
Kelly Reis @kelly.reis_art
A prática de silenciamento inclui a invisibilização de pessoas, fatos, objetos e movimentos. Fomentar a diversidade de narrativas em espaços de memória através de programas de educação patrimonial, arte muralista, exposições, memoriais, centros de documentação, pequenos museus, museus comunitários, objetos arqueológicos, acervos, coleções, trilhas, publicações, é disputar o território que se vive, que se constrói significados, laços de afeto e histórias de luta.
Dani Rampe, usando técnicas de colagem de fotografias históricas e pintura, explicou que "as pessoas que estão aqui na Baixada são racializadas, por isso eu escolhi representar mulheres indígenas. Não sei se você sabe, mas aqui é um local de reciclagem, é importante pensar nessa relação com a terra, com o rio, com a natureza e o próprio território de São Paulo. É isso que os povos indígenas fazem com os conhecimentos tradicionais".
A região da Baixada do Glicério, foi o local da fundação da primeira cooperativa de materiais recicláveis registrada oficialmente no Brasil em 1989 por pessoas em situação de rua, destacando mais uma vez o pioneirismo e a mobilização da região.

Dani Rampe @_danirampe
Na foto coberta com pintura, duas mulheres indígenas foram registradas durante o processo de confecção da farinha. Há flores brancas que brotam de suas cabeças e raízes que tentam alcançar o concreto endurecido das calçadas. A artista explicou que na região de Cruz, Ceará, onde seus pais nasceram, há um período específico para o "processo da farinhada", geralmente começa em junho e vai até outubro.
Afolego (Carolina), autora da mulher de pele rosa com cabelos curtos e roxos, aposta na referência do "lenço verde" que é o símbolo da luta pelo direito ao aborto iniciada em 2003 na Argentina. O rosto da imagem parcialmente encoberta por uma "comigo ninguém pode", segundo ela, também pode ser interpretada como uma tentativa de proteção nas ruas e uma busca pela ancestralidade.
Afolego @afolego
Ela explicou que as latinhas de spray facilitam a pintura do "muro grosso" das ruas, em comparação com as latas e pincéis de tinta tradicionais. Disse que a textura rugosa do muro e a iluminação forte do sol de quase meio dia, fizeram alguns sombreados durante a execução da pintura, o que exigiu um pouco mais de esforço para a finalização.
Diferente do que muita gente imagina sobre o spray, segundo Afolego, é possível realizar um acabamento bem preciso no desenho, mas é necessário entender a técnica e praticar. Disse também que a latinha é mais fácil de transportar, e de correr com elas, se for o caso. A técnica do graffiti é pouco compreendida e as artistas ainda sofrem preconceito e perseguição, completou Amanda Pankill, autora da mulher Guarani de pele vermelha e cabelos brancos. A imagem aparece coberta por uma pele de onça com a seguinte frase no peito "Kianumaka-Manã".

Amanda Pankill @amandapankill
De acordo com a autora, Amanda Pankill, a Deusa Guarani representada está associada à liberdade, à um espírito livre e indomável "carrega consigo o espírito das onças como forma de encarar seus medos. É uma deusa guerreira e eu quis representá-la, pois para estar nas ruas, temos que nos vestir um pouco de onça e estarmos prontas para encarar um ambiente que é hostil para os corpos das mulheres. Pra se manter na rua é preciso guerrear com muitos obstáculos".
Mestiça mãe, explica que "no meu trampo eu procuro representar mães. Acho que somos uma classe esquecida no mundo profissional e também no mundo das artes. Esse apagamento é muito cruel e eu entendo que essa representatividade é uma forma de nos lembrar de nossa ancestralidade. Da importância de reverenciar quem veio antes de nós para termos um presente e futuro mais saudável, respeitoso e próspero".

Mestiça Mãe @mimurarodriguez
Luana Xavier, disse que "é maravilhoso poder estar com várias artistas pintando no Glicério e poder colocar um pouco da minha arte aqui. Busco abordar temáticas variadas, com atenção especial aos temas que envolvem manifestações da cultura brasileira, sua fauna e flora. Assim como a valorização do feminismo e seus desdobramentos. Aqui optei por representar uma árvore por ser um muro de um espaço de reciclagem que ressignifica os materiais descartados, contribuindo para a preservação do meio ambiente".

Xavier @luanaxaviertattoo
Durante o processo de execução da obra de arte pública, essas mulheres compartilharam seus conhecimentos sobre técnicas artísticas, trabalhos, experiências de pintura nas ruas, inclusive suas próprias tintas e o espaço do muro. A realização deste empreendimento teve o apoio da Escola Waldorf em parceria com o Serviço Franciscano de Apoio a Reciclagem - RECIFRAN. Segue abaixo as multiartistas que compõe a Exposição localizada na Rua Junqueira Freire, 176.
Caluz @caluzcaluz
Nart @nartarte
Ana Carla @_negana_
MaJo @majo.stencil
Bea @beacorradi
maribê @wtfmaribe & Mestiça Mãe @mimurarodriguez
Tuíra
VID EIRA @eu_vid
maribê @wtfmaribe
Patrícia Bonani/P.BONANI @patriciabonani
Projeto de Educação Patrimonial e Ambiental Baixada do Glicério Viva
@baixadoglicerioviva